sábado, 30 de abril de 2016

Tempo, tempo, tempo: és um dos deuses mais lindos [e mais misteriosos]



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Descrição da imagem: É uma cena de uma menina abrindo uma porta. Pela postura de seu corpo, ligeiramente inclinado avançando para o mundo que do outro lado se descortina, é possível sentir toda a sua curiosidade. Ela usa vestido rodado, meia calça branca e sapato. As pernas finas sob o vestido, meio dobradas, parecem antecipar e temer os passos que logo ela dará rumo ao mundo depois da porta. O ambiente é de meia luz, teto direito bem alto, o que dá a menina uma estatura menor, pequena diante daquela imensidão que o ambiente anuncia e [tenta] aprisionar. Do lado direito da cena, por uma janela, entra uma luz forte, intensa. Anuncia que há um fora daquele ambiente. Não sabemos se o fora da janela é o mesmo que se vislumbra pela porta, por onde também passa uma luz, um facho de luz mais franco do que o da janela e muito, mas muito, convidativo.

Passados quatro meses desde o último post no Garatujas, dou-me conta de que nesse período o cotidiano não foi, de modo algum, livre de histórias. Ao contrário, sob o sol de um verão interminável, as histórias povoaram esses dias. Mas o tempo para escreve-las, ah... o tempo! Um dos deuses mais lindos, o tempo é cheio de mistérios. Há dias que escorrem pelos dedos das mãos, outros que ficam conosco nos limites do infinito. Faço com Caetano a bela oração ao tempo, esse compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, em busca de um acordo que nos una num outro tipo de vínculo. Nos últimos dias que antecederam às férias, tão sonhadas férias, deitei-me em orações ao tempo. Adormeci rapidamente com o corpo extenuado pelo trabalho intenso, os olhos e a mente exauridos pelas leituras obrigatórias e pelas milhares de mensagens que nos chegam por todos os poros nestes dias de conexão digital. Naquele estado entre o sono, que já me pesava nas pálpebras, e a vigília, eu fazia as minhas orações ao tempo, cantarolando em silêncio: tempo, tempo, tempo, peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, tempo, tempo, tempo. A oração ao tempo foi sumindo lentamente, desaparecendo com a decisiva e derradeira  aproximação do sono. Enquanto as últimas palavras e acordes da oração ao tempo tomavam minha alma, meu corpo já entrava num mundo de Alice, num universo de Nárnia. Era o meu quarto, a minha cama, as férias que já se aproximavam e, com as férias, os sonhos.  Planejamos que iríamos para a serra, para o mato, em busca de frescor e de águas doces. E foi justamente para uma floresta que meus sonhos me levaram, agora de corpo e alma.  Eu atravessara uma porta. Estávamos juntos, felizes, eu e meu nego diante de uma imensa e exuberante floresta. Era um mundo enorme que se abria diante de nós onde era possível sentir a umidade das folhas das árvores, ouvir o canto dos passarinhos, ver a infinidade de tons de verde que coloriam a cena.  Leve, alegre e talvez ainda sob um cantarolar da oração ao tempo que se fazia em mim à minha revelia, perguntei ao meu nego: Nego, entre todos os deuses que moram nessa floresta, qual deles você acha que pode exigir de nós mais submissão? Pude olhar para meu nego, ver seu sorriso, sentir sua mão segurando a minha, mas não o ouvi dizer palavra: o despertador ao meu lado soara um alto e estridente alarme.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Cenas da barca (II): o pulso e a brisa

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Descrição da imagem: É um dia de céu azul. À direita, a barca navega nas águas da baía de Guanabara. A cena mostra apenas uma parte da barca, como se ela chegasse na imagem, sem ter concluído a sua passagem. Ao fundo, uma parte da Ponte Rio-Niterói, onde podem ser vistos muitos e muitos carros. Parece que há congestionamento na Ponte. Na barca a placa que a nomeia indica o que seu passageiro vivencia: Boa Viagem. Será?

Tenho colegas de trabalho que estudam as relações entre subjetividade e espaços urbanos. O tema é instigante já que nossa vida na urbe é atravessada por idiossincrasias, como a que vivi no dia de hoje. Fui ao Rio de Janeiro de barca, como tenho feito rotineiramente a fim de fugir dos congestionamentos intermináveis que imobilizam carros, ônibus e qualquer outro veículo com quatro rodas. O céu nublado minimizava o calor do verão, havia uma brisa no ar e eu seguia sem nenhuma pressa para a cidade vizinha. De vestidinho colorido, sapato baixo, meus cabelos ainda guardavam o cheiro do shampoo que usara no banho recém tomado. Meu corpo tinha o frescor de uma manhã leve. O que me conduzia ao Rio de Janeiro não era nada que necessitasse das malvadas exigências do relógio que adornava o meu pulso. Era um encontro que podia esperar, não tinha urgência e eu havia saído de casa cedíssimo para aproveitar a manhã. Porém, o que eu não sabia é que havia um relógio maluco a pulsar dentro do meu pulso. Isso mesmo, havia um relógio a pulsar dentro do meu pulso. Disso só me dei conta quando, ao me aproximar da estação das barcas, ouvi o som que vinha das roletas. Era um aviso sonoro, uma sirene, que indicava o iminente fechamento das roletas. Junto com o aviso sonoro, luzes vermelhas, em formato de X, piscavam em cima de cada roleta. Quanto tempo restaria para as roletas fecharem?  Foi a pergunta que me fiz com os olhos esbugalhados refletindo as luzes vermelhas que piscavam nas roletas. A sirene invadia meus ouvidos e  por esta porta de entrada, me tomava o corpo. Era preciso correr. Meus pés saíram em disparada, me reuni às pessoas apressadíssimas que, ao meu lado, também corriam. Era movida pelo relógio que pulsava dentro do meu pulso, era ele e não o outro, que me fazia correr. Corri sôfrega, era preciso alcançar aquela roleta como se não houvesse mais nenhuma barca no mundo, como se meu compromisso na outra cidade fosse questão de vida ou de morte. Corri impulsionada pelos meus pés, pelas minhas coxas e pelo relógio a pulsar dentro do meu pulso. Alcancei a roleta, encostei o cartão na máquina e quando vi que o valor da passagem fora debitado, avancei sobre as barras de ferro e joguei meu corpo para dentro da estação. Foi como seu eu tivesse ganho uma corrida de obstáculos! Alcancei a barca! Ou melhor, alcancei aquela barca, a última barca do mundo! Segui reunida com a massa de gente a minha volta e notei que a prova continuava. A corrida agora era para conseguir um assento na barca. Passos apressados a minha volta, corpos que se lançavam nas fileiras de cadeiras em busca do assento que aliviaria aquela sofreguidão por 20 minutos. Findo esse tempo, possivelmente o rally teria continuidade. Seria preciso descer da barca correndo para alcançar mais alguma coisa que eu não sabia ainda o que era. No entanto, tão logo coloquei os pés na barca, fui alcançada pela brisa que vinha da baía de Guanabara. Uma brisa no meio daquela ofegante correria. Uma brisa que me trouxe de volta a manhã de um dia em que eu não tinha nenhuma pressa. Uma brisa que fez meus pés pousarem no chão da barca, que lentificou meus passos, invadiu minhas narinas até fazer de mim também brisa. Uma brisa suave, bem aventurada e bem vinda nos dias de verão. Foi ela quem deteve o relógio que pulsava dentro do meu pulso. Quando desci da barca, a brisa era eu. Segui a passos lentos, com olhos calmos, ouvidos atentos e desatentos. Eu estava presente e tinha comigo a minha manhã, com vestidinho colorido, sapato baixo, sem nenhuma pressa. À minha frente era um mundo a ser cuidadosamente degustado.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cenas da barca (I): a ilha perdida

É realmente uma experiência única navegar pela baía de Guanabara em tempos de chuva, como nos Cem Anos de Solidão: a chuva que não acaba nunca mais. Tudo branco no entorno, não se vê nem uma montanha, nem a ponte, nada. Navega-se no branco da neblina. Sinto-me em busca de uma ilha perdida, a ilha de São Sebastião! Será que a encontraremos? O futuro teima na incerteza e o que nos resta é essa brancura infinita! Quero de volta o sol, o calor, o verão, o canto das cigarras, as gaivotas que seguem a barca e tudo o mais que povoa nossos janeiros. Como será que interrompemos a brancura infinita? Onde está a ilha de São Sebastião?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Altamir: o praticante de mágica

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Descrição [afetiva] da imagem: A cena tem duas partes. À esquerda e ao fundo, em preto e branco com tom sépia, algumas pessoas estão sentadas, são dois homens e uma mulher olhando para a direção em que estamos nós, que os observamos. Ainda nessa cena em preto e branco, destacado mais à frente e em tom mais vívido do que a sépia, há um homem todo galã, tipo bonitão, vestido com uma roupa meio safari, com chapéu e tudo. Nota-se que ele se debruça sobre um parapeito e lança o tronco adiante para beijar a mocinha, que está na segunda parte da cena, mais à direita. Os lábios dos dois quase se tocam, o galã coloca a mão forte no braço da mocinha, como se quisesse abraça-la. Dois detalhes importam: um, temos certeza de que se beijarão, a mocinha está entregue e ele é só sedução. Dois, a mocinha está em cores. É justo o que se passa no filme A rosa púrpura do Cairo, dirigido por Woody Allen. O personagem do filme visto pela mocinha sai da tela, sai do filme e vem beija-la na plateia. As cores distintas marcam  esse ponto, a história dentro da história. Isto é, a história que a mocinha assiste no cinema e a história dela, da mocinha. Quando vi esse filme esperei o tempo todo que os personagens saíssem todos da tela para se enredarem na nossa história, nossa, dos espectadores! Mal sabia que um dia eu encontraria Altamir, o praticante de mágica!

O nome dele era Altamir. Ligeiramente careca, barba por fazer, óculos de grau, Altamir se aproximou de nós numa praia na Bahia, onde estávamos, de férias. Sentados embaixo de uma barraca, na beira da praia, avistamos Altamir se aproximar trazendo nas mãos um veludo preto, enrolado no formato de um pote. Aos nossos olhos aquele veludo preto parecia conter uma poção mágica ou quem sabe alguma outra coisa muito valiosa. 
- Bom dia, posso mostrar meu trabalho para vocês? Foi o que nos perguntou Altamir, com um sorriso nos lábios.
Curiosa para ver o que ele trazia naquele pote mágico, logo disse que sim, nem esperei o aval do meu nego. Resolvi a questão de imediato. Altamir começou a tirar de dentro do pote mágico umas bijuterias.
- Esse aqui é o meu trabalho - ele ia nos mostrando pulseiras e colares, um a um. Logo emendou dizendo-nos que as bijuterias eram feitas por ele mesmo, com aço inoxidável e pedras.
Fiquei encantada com o que ele mostrava, especialmente com uma pulseira. Perguntei-lhe o preço da peça e Altamir cheio de sorrisos e simpatias me responde:
- Uma é 25, duas eu faço por 50! 
Soltamos uma gargalhada!
- É que o negócio tem que ser bom para vocês e para mim, né, não? Assim, fica bacana para todo mundo, não acha não?
Concordamos, claro, uma por 25 e duas por 50 era justíssimo! Seguimos na conversa. Altamir diz que a pulseira de que gostei era feita com a pedra do sol. Ah é? perguntei. Sim, pedra do sol, ele disse. Colocou a pulseira no sol, moveu-a para lá e para cá e eis a mágica: a pedra brilhava, reluzia como uma joia! Que lindo! exclamei, completamente encantada por Altamir, a esta altura já o considerando um mago da simpatia e da alegria.
Ele pergunta o nome do meu nego: Paulo, o nego responde e apresenta nosso filho, Gabriel.
Altamir solta um sorriso farto, olha para mim com cara de quem  descobriu um segredo e diz:
- Você deve se chamar Maria, pronto, completa a cena bíblica! Paulo, Maria e Gabriel, fechou!
- Não, passou perto, me chamo Marcia, eu respondo.
- Marcia, né? Ficou pertinho, pertinho, é quase Maria.
- Minha mãe se chamava Maria.
- Pronto, não disse? Taí, fechou tudo, fez sentido: é Marcia (meio Maria), Paulo e Gabriel. Fez sentido agora, fez não?
Altamir segue fazendo mil considerações sobre nossos nomes. Diz que anda estudando a história da bíblia. Aquilo tudo é muito interessante, não acham não?, ele nos pergunta sem esperar resposta. Faz umas observações sobre o nome Paulo e segue com as análises do nome Gabriel. 
- Tenho um filho de dois anos chamado Lucas Gabriel. Foi depois que ele nasceu que comecei a pesquisar a história da bíblia. Rapaz! Aquilo tem muita história! Gabriel é um anjo único, só tem ele, sabia não?
- Sim, sabia, eu disse. É o anjo que traz a boa nova, acho bonito isso, né?
- É, mas a questão é que há muitos anjos, mas Gabriel, com aquela missão, só tem ele. 
Altamir segue contando a história do povo judeu, das migrações e peregrinações. Na história que ele contava havia graça, humor, gargalhadas. Altamir não era, de modo nenhum, um pregador. Era alguém interessado em história, conforme ele mesmo nos disse, fez faculdade de humanas na estadual da Bahia.
- O povo de humanas gosta é disso, gosta é de contar história, né não? É massa isso aí!
Nosso parceiro mágico segue emendando um assunto no outro, sem perder de vista as pendengas biblícas. Nascido ali mesmo naquela região, Altamir falava com aquela musicalidade toda baiana, cheio de ginga, falando aquelas expressões em baianês: conhece a história dos judeus, conhece não? Vixi! Aquilo é uma pendenga!
Meu nego, eu e o garoto nos divertíamos com a interpretação baiana das pendengas vividas por Paulo, o personagem que habitava a narrativa de Altamir. Meu nego, apreciador e conhecedor das histórias contadas por Altamir, coloca carne na narrativa e comenta:
- Eu sou judeu.
- Vixi! Né, não? É? Judeu assim mesmo, judeu legítimo? perguntou Altamir completamente fascinado, como se estivesse diante de um personagem que subitamente saltasse da história para a vida real, como no filme de Woody Allen, a Rosa Púrpura do Cairo, quando o personagem sai da tela e cria mil e uma histórias com a mocinha que assiste o filme! Paulo havia saído direto daquela baiana narrativa e se materializava ali, morenaço, sentadão debaixo da barraca, completamente entregue à deriva das férias!
- Mas você é judeu como assim, negócio de ser judeu é uma complicação, né não? Tem o religioso, tem o que não é religioso... você é judeu é como assim?
- Meus pais são judeus, responde meu nego cheio de orgulho não tanto pela origem familiar mas, antes de tudo, por estar enredado naquela história que nos narrava Altamir. Meu nego ficou todo pomposo, afinal, era ele aquela figura que acabava de ganhar corpo, alma e vida nos espantos e interrogações do nosso mágico interlocutor!
- Vixi, mas que coisa... judeu, né? Assim, você pratica essa coisa toda? 
- Não, não pratico, meu nego disse cheio de objetividade.
Altamir soltou uma gargalhada e emendou:
- Menino, essa coisa não praticante é mesmo uma bossa, né não? Tem não praticante de tudo, sabia? Tem evangélico não praticante, tem católico não praticante, judeu não praticante e tem eu!!! Hippie não praticante, não fumo mais maconha, não! Tô só aqui é vendendo meu trabalho, fazendo um dinheirinho!
Hippie não praticante, jamais careta, o mágico Altamir nos vendeu a pulseira com a pedra do sol. Ainda pudemos ouvi-lo dizer aos companheiros da barraca ao lado:
- Bom dia, posso mostrar meu trabalho para vocês?

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Do outro lado tem a beirada: os mal entendidos na nossa língua


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Descrição da imagem: Capa do livro de Amyr Klink, Cem dias entre Céu e Mar. Num fundo todo azul claro se lê o nome do autor, o título do livro. Em seguida um desenho pequeno, fino, delicado, em tons de vermelho: um barquinho à remo, com um homem sentado em seu interior, segurando dois remos, que mais se parecem palitos para comer comida japonesa (de tão delicados e finos!). A imensidão do azul claro do fundo da capa se contrasta com a pequenez do barco que no entanto, por ser vermelho, parece cheio de vida e força!


Não são poucas as vezes em que grupos de amigos brasileiros comentam os mal entendidos que vivem quando encontram com os parceiros de idioma, os portugueses. Foi numa dessas rodas de conversa que ouvi uma história, entre muitas outras que seguem esse mesmo tom:
Num restaurante em Portugal a pessoa se dirige ao garçom e fala:
- Tem suco de laranja?
E o delicado garçom  responde:
- Não, o suco não temos. Temos as laranjas, podemos fazer o suco.
Os lusitanos parecem tomar ao pé da letra o que nós, brasileiros, dizemos num sentido mais figurado. Daí toda a graça dos mal entendidos. Considero, no entanto, que os mal entendidos grassam é por toda parte e nem precisamos sair do Brasil para vivê-los. Talvez porque nosso país é um continente, não só no tamanho, mas também nos costumes, na música tão variável que se impõe ao português em cada canto do país, nas tradições, na culinária, enfim, cada canto do Brasil é um universo de diferenças, sutil e fragilmente costurado pela nossa identidade linguística. 
Lembro de uma viagem que fiz a Belém do Pará, para participar de um congresso. Lá estavam vários colegas de trabalho, alunos, amigos, era uma festa aquele encontro. Foi num táxi que dividi com a querida amiga Jo Conti que vivi alguns diálogos surreais e bizarros. No caminho que fazíamos ao Museu Goeldi, olhávamos o rio que cruza a cidade. Nunca tínhamos visto um rio tão tão largo! Parecia um oceano! Ficamos encantadas com a beleza daquele rio! Extasiada, Jo, que fazia sua primeira viagem para tão longe do Rio de Janeiro, pergunta ao taxista:
- Que rio largo! O que é que tem lá do outro lado?
E o taxista responde bem honestamente:
- A beirada. Do outro lado tem a beirada.
Jo e eu nos entreolhamos e rimos da resposta do taxista. Resposta correta e certeira, se pensarmos bem no que lhe foi perguntado! Jo, curiosa e completamente disponível para a conversa, segue na prosa com o taxista:
- O que é que tem para se fazer aqui, moço?
E o taxista, mais uma vez, direto e objetivo responde:
- Aqui tem peixe, tem jambu, o pessoal faz tacacá muito bem feito, tucupi, aqui tem maniçoba. Só comida boa. A senhora já comeu o peixe com jambu? Comeu não, foi?
E ele seguiu dando a receita do peixe e falando de mais mil e um pratos dos quais nós jamais tínhamos ouvido falar! Jo e eu rimos de novo! Então tem muita comida para se fazer aqui, que bom, vamos experimentar de um tudo nessas terras, foi o que pensamos! A viagem ficou mais leve e divertida com a prosa que levamos com o taxista! 
Na recente viagem que fizemos à Bahia, eu, o nego e o garoto vivemos alguns desses mal entendidos. Deliciosos mal entendidos! A Bahia tem praias de águas quentes, o que considero uma mágica legítima e verdadeira! Banho de mar em águas calmas, transparentes e quentes! Ah, a Bahia! Nas praias em que estivemos, além dessas águas mágicas, havia quiosques onde se alugavam cadeiras e barracas. Assim, era possível sentarmos à sombra, na beira da praia. Alugamos essas cadeiras e barracas alguns dias, nas praias que frequentamos no entorno da nossa pousada. Num dos dias da viagem, resolvemos conhecer outras praias e fomos mais longe, há uns 30 quilômetros de onde estávamos hospedados. Chegamos a um lugar belíssimo, Itacimirim, eternizado no livro de Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar, por ser o lugar onde ele aportou quando veio de barco a remo da África ao Brasil! É nesta praia também que está o Bar e Buteco do Doró, também eternizado no livro de Amyr Klink! É preciso lê-lo para saber do recado a ser transmitido ao Doró, dono do buteco bem na beirinha da praia. Como amo esse livro, emocionei-me por estar ali, vibrei como se fosse eu a chegar da África, após cem dias de céu e mar! Meu nego foi logo buscar cadeiras e barraca para nos acomodarmos. Estávamos em frente ao Bar e Buteco do Doró, entre o quiosque Cabana da Franga Fogosa e o Bar Deus e as Águas! A Bahia também sabe nomear seus espaços de prazer! Logo fomos recebidos por um jovem, chamava-se Junior. Ele nos disse que trabalhava no quiosque em frente, se quiséssemos a cadeira era só falar com ele. Meu nego, então, querendo saber o preço das cadeiras, pergunta a Junior:
- Como é o esquema de pagamento das cadeiras aqui?
E Junior responde com clareza, para não deixar margem para dúvidas:
- É assim: o senhor me dá o dinheiro, vou lá no quisoque, faço o pagamento das cadeiras, volto e devolvo o troco para o senhor. Aqui funciona assim mesmo! É bem assim!
Rimos com a simpatia e a honestidade de Junior. Meu nego perdeu um pouco o rebolado, não sabia direito como dar seguimento àquela prosa. Olhou para mim e disse: Viu, Marcia? Aqui funciona assim! E eu logo disse ao nego:
- Vamos sentar aqui meu nego, vai dar tudo  certo! A gente paga, Junior traz o troco para a gente! Senta aí, relaxa! Brigada Junior, muito obrigada!
Pronto! Junior abriu-se em sorrisos, seguiu correndo para atender outro freguês e explicar o esquema das cadeiras na praia!
Meu nego, eu e o garoto ficamos ali, entre a Franga Fogosa, Doró, Deus e as Aguas, Junior, Amyr Klink, águas quentes, aquilo tudo que só a Bahia tem! O preço das cadeiras? Ah, era o mesmo cobrado nas demais praias, deu tudo certo! 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Para o fim de ano: Jorge Luis Borges

Garatujas do Cotidiano se despede antecipadamente de 2015. Faltam alguns dias para o recesso e para as férias. E desses tempos de entretempos, todos precisamos! Até a volta!

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Descrição da imagem: 
Foto de Jorge Luis Borges, como um busto. O autor está sorrindo, com as mãos pousadas sobre a bengala. A foto tem uma energia boa.

FIM DE ANO
Jorge Luis Borges

Nem o pormenor simbólico
de substituir um dois por um três
nem essa vã metáfora
que convoca um lapso que morre e outro que surge,
nem o cumprimento de um processo astronômico
atordoam ou minam
o planalto desta noite
e obrigam-nos a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e confusa
do enigma do Tempo;
é o assombro em face do milagre
de que apesar de todos os acasos,
de que apesar de sermos
as gotas do rio de Heraclito,
perdure em nós alguma coisa:
imóvel,
alguma coisa que não encontrou o que procurava.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O vozeirão de jaleco: cada ano é um ano

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Descrição da imagem: A figura é de uma charge. Um homem careca, de óculos e jaleco faz um exame de imagem numa boneca matrioska, que está deitada. O homem segura uma parte do equipamento do exame sobre a barriga da boneca, com a outra mão toca o teclado do equipamento e olha para a tela. Nesta última, o que se vê não é imagem do corpo da mulher, mas a reprodução da cena que vemos: o homem de jaleco olhando a tela, a boneca deitada.  E na tela que está na tela, a cena se repete. Assim, a cena vai se repetindo ao infinito, lembrando George Perec, em A Coleção Particular, leitura que recomendo. A própria imagem é como a matrioska, a boneca russa: uma dentro da outra, sem fim, se repetindo.


Já rendi homenagens à Fernanda Torres pela escrita do texto "Calores" (ver aqui). Pois hoje reitero as reverências. Fui fazer exames de imagem, todos de rotina para uma mulher como eu, já quase nos 50 anos. A chegada ao laboratório onde faria os exames foi marcada pela descontinuidade: do calor tropical das ruas ao inverno glacial daquele local branco, ladrilhado, cheio de gente e com vários balcões e recepcionistas. Num balcão recebo a ordem: apresente a carteira do plano de saúde; em outro, assine um papel, suba uma escada; mais uma sala, outro balcão, mais uma ordem. Fui seguindo o fluxo, arrepiada com a temperatura glacial emitida pelos gigantescos aparelhos de ar condicionado que estavam em todas as salas. Finalmente, depois de um périplo de balcões e recepcionistas, cheguei à sala de exame e foi neste local que encontrei o vozeirão de jaleco. Deitada numa maca, pronta para o exame, ouço um sonoro, grave e alto: BOM DIA, SRA. Levei um susto com aquela voz grave. Era um rapaz, talvez entre os 35 / 40 anos, que entrava na sala para fazer o exame. Um pouco careca, de óculos, vestindo o jaleco branco, o rapaz tinha um vozeirão que combinava pouco com a sua figura. O exame se inicia com o lançamento de um gel sobre a  minha pele, para que o equipamento de imagem funcione melhor. O gel estava mais ou menos à temperatura de - 20 graus, o que acrescido do gélido da sala, gerava uma temperatura de - 40 graus! Cheguei a comentar com o vozeirão de jaleco que o ar era muito gelado e ele me disse que os equipamentos precisam dessa temperatura. Logo imaginei que o equipamento também precisa da temperatura do gel. Tudo bem, há que se fazer algumas concessões aos equipamentos. Segue o exame, o vozeirão quase não fala, olha para a tela do computador, toma notas, olha para tela, arrasta aquele aparelho no meu corpo e assim seguimos. Até que o vozeirão conclui algo: A SRA. É UMA MULHER HORMONALMENTE ATIVA. Bingo! Foi o que pensei, já supondo que isso devia ser comemorado. Nem sabia que daquele exame poderia sair a minha aprovação hormonal. Mas o vozeirão não encerrou neste ponto as suas conclusões, seguiu num brado retumbante:  É, SRA., MAS DAQUI PRA FRENTE, CADA ANO É UM ANO, SÓ PIORA! TEM QUE ACOMPANHAR! Cacildes, estarrecida, emudeci. Que destino me foi traçado, ali na lata, na cara, o vozeirão de jaleco me fez saber que daqui para frente, só há piora. O que? Eu? Meus hormônios? A vida? O Brasil? Um pouco de tudo isso? Não consegui dizer palavra. Terminado o exame, fiz o percurso reverso, desci escadas, revi de trás para frente os balcões, as recepcionistas, a montoeira de gente e finalmente alcancei a rua. No lugar da descontinuidade que marcara minha chegada àquele mundo de ladrilho, experimentei um delicioso reencontro com o  calorão da rua, que me trouxe de volta ao mundo a que pertenço, à vida da cidade, à minha vida. Um alívio. Mas o destino que me fora traçado pelo vozeirão de jaleco reverberava em minha cabeça. Até que finalmente decidi que não podia deixar que o vozeirão, sozinho, decidisse meu futuro e meu presente. Nada disso, dos meus tempos cuido eu. No final das contas, cada ano é um ano desde que nascemos! Cada ano é um ano, disso não resulta nenhum grande dramalhão. Cada dia é um dia, cada mês é um mês. Pois bem, disse em pensamento ao vozeirão de jaleco: se cada ano é um ano o que nos resta é vive-los! Bem vive-los, ora bolas! Desse modo, lanço ao mundo inteiro uma outra possibilidade de conclusão frente ao dito do vozeirão:  se cada ano é um ano, CARPE DIEM! Outra possibilidade, outro mundo.